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Já é hora de fazer prova?

19/10/2017 - Bruno Machado

Tudo combinado para sábado à noite. Geral lá em casa, vai ter telão com MMA. O card terá Connor McGregor, o irlandês com 21 vitórias e três derrotas, detentor do cinturão de pesos leves do UFC. Como oponente teremos o Carlos, meu vizinho, que começou a treinar karatê mês passado e tá indo só pra treinar, pra pegar uma experiência. A turma do bairro fez uma vaquinha pra comprar as passagens, Rio – Las Vegas em dez vezes sem juros. Estamos aqui na torcida.

Nocaute em quinze segundos. Pelo menos Carlinhos deu o seu melhor. Na verdade, nosso amigo só consegue treinar bem se tiver uma luta em vista – tá louco pelo cinturão e não vê a hora de tirar a sorte grande. É assim que ele se motiva, sabe? Infelizmente não foi dessa vez, mas talvez tenha dado pra colher alguma experiência naqueles catorze segundos de pé, já que o último foi em queda livre.

Por um infortúnio do destino, Carlinhos não conseguiu vivenciar uma real situação de competição. De toda sorte, valeu a intenção.

Soa familiar?

Embora já tenhamos falado sobre isso aqui e ali (dê uma conferida em nossos outros textos), é algo muito recorrente. O sujeito quer fazer prova de todo jeito, e diz que só consegue estudar bem quando tem edital aberto – é uma característica dele, entende? Até agora estudou somente 20% das matérias, mas já comprou as passagens e reservou o hotel, e pede pra entrar de cabeça no pós-edital. Ainda que não passe, quer ir só para “pegar experiência”. Que tipo de experiência? Na maioria dos casos experiências pouco realistas, e esse é o problema.

Sejamos justos: se o sujeito tem grana, tempo e curiosidade, quem somos nós para segurá-lo. Desde que tenha em mente que suas percepções não serão muito realistas, já que ainda não possui parâmetros bem acertados de julgamento, sem maiores problemas. Pode ser que volte com a sensação de que tudo é muito fácil e que bastava estudar um pouco mais, ou de que tudo é muito difícil e que nunca conseguirá aprender algo tão complicado. Quem sabe, ache que já se habituou à pressão do ambiente de prova, que já quebrou o gelo, e que aprendeu bastante sobre gerenciamento do tempo. Seja o que for, muitas vezes isso se torna uma crença que se aloja lá no inconsciente, tornando-se um direcionador mal calibrado que acaba influenciando o aluno durante toda sua jornada.

De toda forma, talvez o Carlinhos não precisasse ter levado um cruzado de direita bem servido no queixo para chegar mais perto do cinturão. Talvez se Carlinhos já fosse um pouco mais experiente, teria vivenciado uma situação realista e colhido percepções e experiências verdadeiramente valiosas para o próximo confronto. Além disso, Carlinhos poderia ter poupado a grana da passagem e hospedagem para investir em seu treinamento. Carlinhos poderia ter conseguido muito mais que um hematoma!

Seja realista: controle sua ansiedade e bote os pés no chão, pois muitas vezes há uma maneira mais inteligente de usar seu tempo, dinheiro e esforço. Você terá mais a ganhar se usar esses recursos com mais sabedoria e menos impulsividade. Alterar todo o seu planejamento para uma experiência aventureira não costuma ser uma manobra muito sagaz.

A coisa fica ainda pior quando o sujeito só consegue atingir uma preparação de qualidade se a prova tiver data marcada. É que ele é míope e só consegue se orientar quando a coisa tá bem perto, conhece? Na maior parte das vezes, não há tempo suficiente para atingir o nível necessário para a aprovação e a preparação é feita às pressas – cortando daqui e dali para ver se dá. É aquele verdadeiro sobe e desce de ritmo e de desempenho. Resistência que é bom? Zero.

Seja visionário: saiba trabalhar bem com antecipação, pois quando o edital sair, é melhor já estar afiando a faca. Condicionar a qualidade de sua preparação à prova em vista é um mimo bastante inconveniente em nosso universo. Dê um jeito de se disciplinar e ter menos elementos condicionantes.

Por último, temos o típico caso do metido a triatleta: saiu prova para qualquer área, o salário é bom e são muitas vagas,então quero fazer o pós-edital. Cuidado! Esteja seguro de que essa manobra é bem pensada, e de que esse desvio não trará grandes prejuízos para seu plano inicial. A versatilidade só aumenta com a experiência! Talvez o karatê de Carlinhos ainda não fosse o suficiente para o UFC. Já trocou uma ideia sobre isso com seu consultor?

Seja fiel ao trajeto: a não ser que você já tenha uma vasta experiência e domínio sobre o conteúdo, evite se desviar do trajeto original, pois o tempo perdido com o desvio mal calculado poderá ser fatal.

Como em tudo mais na vida, há casos e casos. Tem quem veja vantagens em começar fazendo provas a torto e à direita. No entanto, a maior parte das pessoas só têm a ganhar em fazer tudo de forma bem planejada!

Enfim, é bacana dosar suas expectativas e ter uma estratégia de estudo bem pensada. É legal fazer uma análise das possíveis perdas e ganhos advindos dessa sua escolha. É fundamental ter em mente que há um percurso a ser percorrido, e que quando já existe data marcada para a prova, pode ser tarde demais para começar. Carlinhos agiu como se não tivesse um treinador, mas esse não é seu caso, certo?

Não se torne um viciado em jogar a toalha. Seja um competidor sério e saiba que a real competição tem sempre data marcada: hoje, amanhã e depois.

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